Designer Gráfico - Jonas Fahelysson

ENGENHOS DE SAUDADE, POR TIÃO LUCENA

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Era como se fosse parte do quintal da minha casa. Não que o meu quintal fosse grande ou vistoso. Mas é que no quintal se guarda a melhor lembrança das brincadeiras de sonhos que somente aos meninos é dado o direito de desfrutar. E os dois engenhos de rapadura pertencentes a Antonio Luzia e a Vicente Pedro se constituíam o único mundo encantado que tive o direito de conhecer, antes da Serra do Gavião das minhas lembranças eternas.

O de Antonio Luzia ficava no alto da serra. O de Vicente Pedro se postava mais abaixo, cerca de duas léguas à direita. O do alto era mais vistoso. O da parte baixa, se não ostentava o jeito majestoso do concorrente, tinha um aspecto mais caseiro.

Ali eu chegava, carregado pelos braços de dona Emília, para comprar o mel que era comido, mais tarde, misturado com farinha de mandioca ou cuscuz. Também enchíamos as cabaças com a gostosa garapa da cana caiana, garapa doce, que descia pela goela refrescando as tripas e abrindo o apetite para o almoço de mais tarde, almoço de fava com torresmo de porco e aquela graxa do toucinho derretido que melhorava o gosto da farinha e facilitava a construção do bolo de mão que somente dona Emília sabia fabricar, para ser comido, de boca cheia, pelos buchudos ao seu redor.

Os dois engenhos ainda vendiam a garapa choca, que era aquela dormida de três dias, afundada na areia do Macapá, até alcançar o ponto que a fazia parecer com a melhor cachaça deste mundo. Não soube de ninguém que bebesse uma cuia de garapa choca e não ficasse de porre, conversando miolo de pote.

Nos dias de sábado, Antonio Luzia descia a serra com os burros carregados de rapaduras, para vender na feira de Princesa. Vicente Pedro também fazia a mesma coisa. Os dois montavam seus bancos parede-meia e disputavam a freguesia como se estivessem disputando uma eleição de prefeito.

As rapaduras de Antonio Luzia eram mais alvas e doces.As de Vicente Pedro tinham a cor morena das caboclas do sertão e não ficavam atrás das de Antonio Luzia no quesito doçura.

No final do dia, ambos montavam nos burros e voltavam para a serra, onde moravam, para mais uma semana de moagem, de fabrico de rapadura, de venda do mel moreno e da garapa de cana.

Os dois engenhos foram mortos no comecinho de 60 com a construção do açude público do Jatobá. As águas do açude logo cobriram o engenho de Vicente Pedro, que ficava na parte baixa. Depois invadiram primeiro as canas de Antonio Luzia, em seguida foram subindo, subindo, comendo a terra pelas beiradas, cobrindo tudo, quase chegando no topo da serra onde a casa branca do engenho moía as rapaduras da minha meninice.

Hoje, quem passa pelas margens do Jatobá ainda avista, lá longe, as ruínas da casa branca de Antonio Luzia que servia de engenho. Somente as ruínas sobraram. Antonio Luzia e Vicente Pedro morreram logo após o dilúvio do açude. Foram fabricar rapaduras e servir garapa choca nas festas do céu.

POR TIÃO LUCENA


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