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Fazenda onde membros do MST morreram é de usina condenada por execução de trabalhador

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A usina proprietária da fazenda Igarapu, na cidade de Alhandra, na Paraíba, onde foram assassinados dois integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) em um acampamento, já foi condenada em 2010 pelo Tribunal de Justiça de Pernambuco (TJPE) pela morte do trabalhador rural Luis Carlos da Silva. O crime aconteceu em 1998 na cidade de Goiana.
Conforme coordenador da Comissão Pastoral da Terra (CPT) em Pernambuco, Plácido Júnior, a Usina Santa Tereza, pertencente ao grupo Companhia Agroindustrial de Goiana (Caig). De acordo com o processo, a empresa sediada na cidade na divisa com a Paraíba foi condenada a pagar uma indenização de R$ 100 mil à família do canavieiro. Ele foi morto após um atentado promovido por policiais militares e seguranças da usina contra trabalhadores rurais que estavam em greve, cerca de 20 anos atrás.
O Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) informou que a fazenda Igarapu, área em que foi montado o acampamento Dom José Maria Pires, pertencia ao grupo João Santos, empresário pernambucano que detinha a Companhia Agroindustrial de Goiana (Caig), que entrou em processo de falência.
A Caig, por meio de seu setor jurídico, informou que não reconhece que a fazenda Igarapu faça parte de suas propriedades. Ainda de acordo com o jurídico, o local era usado para o plantio de bambus e a Caig trabalha apenas com o plantio de cana-de-açúcar. O jurídico explicou ainda que não tinha conhecimento do histórico da propriedade.
Tânia Sousa, coordenadora da CPT na Paraíba, por outro lado, afirmou que a propriedade era da Usina Santa Tereza desde a década de 1970. Ela lembra que, à época, a área foi dividida em um assentamento, batizado de Mucatu, que se estende por três municípios paraibanos e em uma propriedade privada que foi entregue ao grupo do empresário João Santos, então dono da Usina Santa Tereza.
“O governo militar concedeu ao grupo de João Santos, que transformou a fazenda em uma área produtiva de bambu até certo tempo, mas depois muita gente ficou sem ter condições de trabalho, a produção entrou em declínio, e após a falências, no ano passado, um grupo de famílias ocupou e montou o acampamento. O bambu do local foi arrancado e transformado em produção de alimentos”, contou.
Porém, Tânia Sousa, que acompanha os conflitos por terra na Paraíba há cerca de 30 anos, explicou que não houve registro desde então de mortes ou violência na propriedade. O coordenador da CPT de Pernambuco garante no estado vizinho a situação é diferente. Ele garante que a usina tem um histórico de envolvimento com atos de violência.
“A CPT acompanhou tudo desde que aconteceu o crime de Luís Carlos da Silva, no dia 4 novembro de 1998. Sabemos que a Usina Santa Tereza tem um histórico antigo de violência. Além do caso de Luís Carlos, onde a empresa foi condenada na Justiça, sabemos do envolvimento na morte de um outro trabalhador rural, conhecido como Cazuza, na cidade de Condado”, comentou.

Investigação do assassinato de integrantes do MST

Roberta Neiva, delegada seccional da região de Alhandra, explicou que ainda não recebeu nenhuma informação a respeito da propriedade da fazenda Igarapu. Ela explicou que foram solicitadas diversas diligências a respeito do caso, a todos os órgãos público citados, entidades ligadas à reforma agrária e às empresas da região.
“Não podemos descartar nenhuma linha de investigação, pois o inquérito está na fase inicial. Os crimes foram registrados em um dia que não era útil, então estamos solicitando essas informações oficiais somente nesta segunda-feira. Esperamos em breve ouvir o máximo de pessoas que possam colaborar para a elucidação do caso”, avaliou a delegada responsável pela investigação.
José Bernardo da Silva, conhecido como Orlando, de 46 anos, e Rodrigo Celestino, de 38 anos, foram mortos a tiros na noite de sábado (8) durante o jantar em uma das casas do acampamento Dom José Maria Pires, em Alhandra. Orlando, uma das lideranças do MST na Paraíba visitava o local, e Rodrigo morava no acampamento montado na fazenda Igarapu desde julho de 2017.

Morte de canavieiro

Luís Carlos da Silva foi morto aos 27 anos, em 1998, durante um ato dos trabalhadores de uma usina de cana-de-açúcar que estavam em greve por melhorias nas condições de produção e de salário. De acordo com a CPT, sabendo da greve dos canavieiros, a Usina Santa Tereza começou a usar os trabalhadores das plantações de bambu.
Os funcionários grevistas decidiram então marcar uma reunião com os trabalhadores dos bambuzais para que aderissem à greve, mas ao se aproximarem do canavial, foram pegos em uma emboscada. Luís Carlos da Silva morreu no local e outros 13 canavieiros em greve ficaram feridos.
Por conta do crime, cinco soldados e um capitão da Polícia Militar de Pernambuco, além do administrador da usina, o encarregado da Segurança e oito seguranças foram a julgamento e condenados. A Usina Santa Tereza e o estado de Pernambuco também foram a julgamento em uma ação cível e foram condenados a indenizar a família da vítima. De acordo com a CPT, apesar de o julgamento ocorrido em 2008 ter condenado 14 pessoas, até o momento, ninguém iniciou o cumprimento de suas penas.
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